sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

FOTOBIOGRAFIA DE FORTALEZA ATRAVÉS DE RASTROS

FOTOBIOGRAFIA DE FORTALEZA ATRAVÉS DE RASTROS

Amanda Andrade Lima, Cristina Maria da Silva

Resumo


Ler fotografias é buscar nos rastros que elas trazem as potencialidades narrativas que propiciam uma experiência antropológica. Assim, através desses rastros, buscamos vestígios em álbuns fotográficos de famílias que sejam capazes de narrar uma biografia de Fortaleza-CE, baseada nos laços de sociabilidade e interação com a cidade que essas famílias têm. Desta maneira, pretende-se ampliar o conhecimento que se tem da cidade de Fortaleza-CE, ao considerar as narrativas, as experiências, subjetividades e memórias que as fotografias evocam, tornando possível rabiscar uma fisionomia ou mesmo biografia tanto dos bairros quanto da cidade. Nesta experiência nos ancoramos nos estudos de Etienne Samain, Jeanne Marie Gagnebin, Georges Didi-Huberman, Carlo Ginzburg, Ecléa Bosi e Fabiana Bruno para nortear na leitura das fotografias e na experiência antropológica de escrever sobre os rastros e os restos. Na tentativa de construir uma paisagem fotográfica da cidade tivemos uma primeira experiência que se tratou de uma oficina de fotobiografia entre os integrantes dos Grupo de Estudos e Pesquisas Rastros Urbanos. Em seguida, as vivências ocorreram junto a moradores do bairro Poço da Draga, que dividiram suas memórias conosco através de seus álbuns de fotografia, mesclando fotografias, relatos, narrativas e afetos ao percorrer os registros pessoais. Como culminância deste momento tivemos o aniversário de 111 anos do Poço da Draga, em que realizamos uma exposição intitulada “Habitar é deixar rastros”, com as fotografias dos acervos pessoais dos moradores, onde o bairro aparece em diversas temporalidades, sugerindo assim, por meio das fotografias, as marcas que os habitantes deixam na cidade e os rastros da cidade na trajetórias desses habitantes.
http://www.periodicos.ufc.br/eu/article/view/28786

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Projeto de Extensão - Fotobiografias: A Fortaleza que se encontra em acervos fotográficos pessoais

            Durante o ano de 2017 o Grupo de Estudos e Pesquisas Rastros Urbanos esteve focado, a partir do seu Projeto de Extensão "Fotobiografias: A Fortaleza que se encontra em acervos fotográficos pessoais", em conhecer os álbuns fotográficos de habitantes de Fortaleza - Ceará para, assim, ter acesso a outras narrativas sobre a cidade que não as oficiais.

           Compreendemos, a partir de Fabiana Bruno, que as imagens carregam em si um potencial narrativo e que, portanto, é preciso aprender a ler as imagens. O que as fotografias sussurram, contam, gritam? O que as fotografias pensam, enunciam, narram, e que não está na ordem do escrito? Se quisermos saber precisamos de tempo para ouvi-las e de silêncio para entendê-las...

            Assim, ao longo do ano visitamos moradores da Comunidade Poço da Draga e tivemos acesso às suas fotografias de álbuns pessoais, fizemos visitas guiadas pelo morador e Geógrafo Sérgio Rocha ao longo das ruas do Poço, construímos a Exposição Fotográfica "Habitar é deixar rastros...", que se deu a partir das imagens de acervos pessoais dos moradores e fomos aos Saraus organizados pelas moradoras da comunidade.


           
Visita à uma moradora do Poço da Draga em Maio de 2017 


            Ao ouvir os relatos que as fotografias apresentadas pelos moradores suscitavam pudemos compreender um pouco mais da história de Fortaleza, história essa que não se encontra escrita nos arquivos oficiais, uma vez que é construída e feita no cotidiano dos moradores. Sua vivências, hábitos, afetos e subjetividades em relação à cidade apareciam  à medida que contavam sobre suas vidas, amparados nas memórias que as imagens lançavam. As fotografias faziam enunciar sobre a falta de saneamento básico no Poço da Draga, sobre os problemas que giram em torno da construção do Acquario, sobre as sociabilidades na comunidade e religião. Mas as fotografias também foram responsáveis pelo silêncio que atravessa o instante quando as memórias invadem o pensamento.
           
            Assim, as imagens agiram como impulsionadoras de narrativas e depoimentos dos interlocutores, revelaram experiências, apropriações, trajetos e tensões, tornando possível a construção de uma paisagem fotográfica de Fortaleza.


Amanda Andrade Lima
Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará
Bolsista do Grupo de Estudo e Pesquisa Rastros Urbanos





segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Imagens Pretéritas: A poética na supervivência de fotografias órfãs


Arrumar fotografias em álbuns pessoais é, de certo modo, conceder um ritmo,um tom, um sentido e uma ordem à narrativa de sensações e de experiências.
Como lidar com fotografias à deriva?, descoladas de álbuns familiares, ou seja, perdidas, dispersas e embaralhadas no tempo e no espaço?

A partir dessa indagação, o Grupo de Estudos e Pesquisas Rastros Urbanos e a Professora Fabiana Bruno (UNICAMP) convidam todos/todas para conversar e explorar os valores expressivos das imagens fotográficas.
 
 
 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Rachel, Racheis: Travessias entre saberes


Qual Rachel de Queiroz (1910-2003) surge diante dos olhares específicos de áreas como as ciências sociais, geografia e estudos literários? Esta é a pergunta colocada pela mesa–redonda Rachel, Racheis: Travessias entre saberes, proposta pelo Grupo de Estudos e Pesquisas Rastros Urbanos, com o objetivo de discutir a vida e a obra da escritora cearense. 




O momento nos parece mais que oportuno.

Em 2017, faz 40 anos que a Academia Brasileira de Letras (ABL) abriu as portas para a primeira escritora, no caso, Queiroz, tornando-a a primeira mulher a ocupar um lugar numa das principais instituições de consagração literária do país. Uma conquista muito significativa para as mulheres de letras brasileiras, principalmente, para aquelas que almejavam fazer da pena um ofício.  

Queiroz nasceu em 17 de novembro de 1910 e faleceu em 04 de novembro de 2003.  Portanto, o dia 07 de novembro, no qual se realizará o evento, localiza-se, justamente, neste entremeio – entre o nascimento e a morte –, o qual, como lembra-nos Kofes (2004): “é no intervalo entre a vida e a morte, que uma experiência de vida se encarna no mundo e, consequentemente, adquire condições de ser representada por meio de uma narrativa”. 


Referências:
FANINI, Michele Asmar. Fardos e Fardões: mulheres na Academia Brasileira de Letras (1897-2003). Tese (Doutorado em Sociologia). Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.
KOFES, Suely. “Os papéis de aspern”: anotações para um debate. In: História de vida: biografias e trajetórias/Suely Kofes (org.) – Campinas, SP: UNICAMP, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2004, (Cadernos do IFCH;31), págs. 5 – 16.



Texto: Bruno Duarte Nascimento


sábado, 20 de maio de 2017

#Resistência - Filme de Eliza Capai






Assistimos ao filme #Resistência no Departamento de Ciências Sociais da UFCE, na segunda-feira, dia 15 de Maio de 2017. Tivemos a presença de alunos do curso, tanto da licenciatura quanto do bacharelado, colegas professores e como debatedores eu, Professora Cristina Maria, e o Professor Romain Bragard. Foram muitas as questões que nos cercaram diante do filme e do debate. Contudo, dois pontos, são os mais fortes para serem mencionados. 

1) O lugar e o Ser Mulher no Brasil.
2) O lugar da Mídia no processo político atual. Falam nos de SER e de COMO PODEMOS DIZER O QUE SOMOS. 

É muito forte pensarmos em qual é o lugar da mulher nesse momento no Brasil, depois da retirada, através de um golpe, da Presidente Dilma Rousseff. Dilma é a primeira mulher a assumir a presidência da República no Brasil, e pela primeira vez vemos preocupações com corte de cabelo, vestido, se a presidente é gorda ou não. Ela foi profundamente desrespeitada, tendo sua imagem atrelada a adesivos, piadas e comentários misóginos. (Para lembrar a etimologia da palavra misoginia: Misió, quer dizer ódio. Gyné, Mulher.) Por que tanto ódio à imagem de uma mulher? Esse ódio se dirige somente à ela, Dilma Rousseff, ou fala de cada uma de nós e dos lugares que ocupamos nessa sociedade?
É de um lugar de gênero que estamos falando e, sobretudo, de uma relação de gênero com o poder? Qual o lugar da mulher na política brasileira?

 Como a mulher é vista e respeitada nos lugares cotidianamente? Como é olhada? Como as mulheres são mencionadas quando ocupam cargos de liderança e poder? Refletimos então sobre esse lugares na Universidade, as mulheres nas chefias de Departamento e como em nosso próprio curso, professores e colegas, muitas vezes, silenciam. Desrespeitam ou subestimam os lugares de fala e de gestos das mulheres.  Ainda somos uma sociedade onde jovens, por brincadeira, queimam um índio na rua, e ao se explicarem dizem que estavam apenas brincando e pensavam se tratar de um morador de rua. Mulheres cotidianamente tem medo de serem estupradas, como lembra Eliza Capai, no filme. Negros todos os dias sofrem racismo e ódio pelo que são. Estranhos, estrangeiros sendo inquiridos por olhares que indagam, muitas vezes, silenciosamente, mas não menos agressivos, sobre o que vestem, como se comportam, o que dizem e o que fazem. Qual o lugar da diferença nesse país? Por que temos tanto ódio do que somos? De sermos pobres, negros, índios, mulheres? É de diferença que precisamos falar e do direito ao nosso próprio corpo, esse lugar que somos. São corpos incômodos, corpos que não se quer ver na esfera pública? Por que nos incomoda e nos causa tanto ódio a diferença, se somos mestiços? Essa mistura ou mélange é o que nos incomoda?

É muito expressiva a participação feminina nas ocupações das instituições públicas no Brasil e nas manifestações. Esse filme aponta para essas frentes que demonstram lugares de resistência diante da dominação masculina que ainda se faz presente entre nós!

O professor Romain, francês e há alguns anos professor de nosso Departamento de Ciências Sociais na área de Antropologia nos disse:"Eu chorei nesse filme, e na saída da Dilma". E continuou: "Em oito anos aqui eu ainda me surpreendo!". "Esse golpe é machista!", nos lembra de maneira direta e pontual o professor.

No dia da aprovação do Impeachment eu lembro que meus alunos de Introdução à Sociologia, no Curso de Ciências Contábeis, choraram em sala de aula, preocupados com o que iria acontecer com o país, com eles, com a Universidade. 

Mas para além da visibilidade e dos trajetos das mulheres na esfera pública é importante notar que o filme nos fala do papel da mídia nesse momento, sobretudo, da mídia independente e da ideia de que " Eu sou minha própria mídia". Qualquer um com uma telefone em mãos, com recursos de fotografia e vídeo e acesso à internet pode construir sua narrativa sobre os fatos, seja sobre a situação política atual, bem como da micropolítica cotidiana na qual estamos todos inseridos. A mídia não é mais a mesma, as formas de ser a realidade não são mais as mesmas. Na ocupação da ALESP é muito claro os lugares da mídia tradicional, que só podem filmar de cima, e das mídias independentes que podem descer, ficar com os ocupantes, estudantes secundaristas. Lembro-me das palavras do historiador Michel de Certeau na Invenção do Cotidiano, e em como podemos olhar para a cidade e para o que nela acontece, de cima e de longe, ou de perto, acompanhando os rastros da pessoas, sentido seus hálitos, o calor da suas presenças, os ruídos de suas inúmeras vozes.

Somos gratos pelo belo trabalho de Eliza Capai, que desde As Severinas, No Devagar Depressa dos Tempos e agora com #Resistência, nos acena para as lutas que se travam em nossa sociedade pelo direito de descobrirmos quem somos. Obrigada por nos fazer pensar no momento político atual e como temos força para transformar a sociedade que vivemos. Inspiremo-nos nos estudantes secundaristas e  no que eles nos ensinam!!!

Esperamos que a República não seja apenas a estação do metro por onde se entra e sai na cidade de São Paulo, como vemos em uma das cenas do filme. Não podemos esquecer, como bem lembrou o professor Romain, a liberdade é uma mulher, se lembrarmos do quadro de Delacroix!

- Professora Cristina Maria da Silva.
Departamento de Ciências Sociais -UFCE
Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Rastros Urbanos.